Automobilismo Duodecacampeão

Duodecacampeão

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Por Pedro Giulliano

A palavra pode parecer difícil, mas seu significado é muito simples perto do que representa. A palavra é um termo simplificado para um fato que pouquíssimas pessoas conseguiram na vida: Serem DOZE vezes campeã de algo. Esse é um feito que o ex-piloto Ingo Hoffmann conseguiu na maior categoria do automobilismo nacional, a Stock Car, nos anos de 1980, 85, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 96, 97, 98 e 2002. Isso sem contar suas passagens pelo automobilismo internacional, inclusive pela Fórmula 1, onde pilotou na única equipe brasileira que já correu na maior categoria do mundo, a Coopersucar, nos anos de 1976 e 1977.

O Caderno Informativo fez uma entrevista exclusiva com o piloto, que tinha acabado de ser homenageado com um passe vitalício para as corridas da Stock, além de ser declarado embaixador da categoria. Ingo falou sobre como anda a vida pós-carreira automobilística, sobre como foi sua despedida, da importância da memória para o automobilismo, além de ver uma saída um tanto quanto polémica para a melhor sustentabilidade do esporte no país.

Confira!

COMO VOCÊ TEM SE SENTIDO APÓS A APOSENTAODORIA?

Tá tudo ótimo depois que eu parei de correr. Corri até os meus 55 anos e ainda era extremamente competitivo, anunciei minha despedida fazendo uma Pole Position em Interlagos… Então dá uma sensação muito boa, que poucos pilotos sentem quando chega essa hora, pois eu parei porquê quis, não porquê não era mais competitivo na pista, ou porquê algo pior poderia ter acontecido. A felicidade maior ainda foi fechar minha última corrida da carreira num pódio, ou seja, com uma belíssima chave de ouro.

Depois disso ainda fiquei mais dois anos como diretor esportivo na equipe TMG, e só depois me afastei por completo, não porque quis, mas porque ninguém me chamou, e também nunca bati na porta de ninguém.

O QUÃO IMPORTANTE É ESSE TIPO DE HOMENAGEM COMO ESSA QUE VOCÊ ACABOU DE RECEBER? COMO VOCÊ IMAGINA O IMPACTO DISSO?

A iniciativa de homenagear os pilotos é muito válida, porém, o brasileiro não tem o hábito de prestigiar e homenagear os pilotos antigos. Eu costumo brincar que se eu tivesse correndo na NASCAR americana e ganho 12 títulos, eu poderia concorrer à presidência da república e ganhar. Na Europa eles dão muito valor também. Só pilotos campeões são contratados pelas marcas, pelos promotores e pelas próprias categorias para serem embaixadores. Então tomara que as coisas se revertam com essa iniciativa. Acho difícil, mas vamos torcer.

VOCÊ ACHA QUE O AUTOMOBILISMO BRASILEIRO ESTÁ SAINDO DE UMA FASE DEPRESSIVA?

Depende. Se a gente olhar somente pela Stock, acho que ela nunca teve em depressão, ela sempre esteve bem. Porém, outras categorias passaram por uma fase decrescente, por exemplo, a Fórmula Truck que faliu, rachou e criou outra que é a Copa Truck, e parece que vai vingar.

Repare: As únicas categorias com peso nacional estão aqui junto com a Stock. No mesmo evento temos o Brasileiro de Marcas, o Brasileiro de Turismo e Mercedes Challenge. Porém eu pergunto: Se o brasileiro de marcas não estivesse aqui, como será que a categoria estaria? A Stock sempre foi o carro chefe porque sempre foi chamariz de público. E o sucesso disso sempre foi por conta dos promotores, porque se dependessem das federações e confederações, poderia trancar o autódromo e vender o terreno, pois não ia ter nada.

NA ESTEIRA DO QUE ACONTECEU NA FÓRMULA UM, QUE MUDOU A SUA GESTÃO, A STOCK TAMBÉM MUDOU SEUS COMANDANTES. COMO VOCÊ AVALIA A ATUAÇÃO DOS NOVOS MANDATÁRIOS NA CATEGORIA?

Eu conheci o Rodrigo [Mathias, novo chefão da categoria em seu primeiro ano de gestão] há menos de uma hora atrás. Os comentários que eu recebi sobre ele foram os melhores possíveis. Ele me confessou que não era da área de automobilismo, e agora parece ser um bom entendedor do sistema, sem contar que ele é um grande profissional, pois ele vê isso aqui como negócio. Por exemplo, ele me passou uns dados de que há 3 semanas atrás o site da stock tinha só 150 acessos por dia, hoje já passou da casa dos 1000. Então isso revela que houve um salto de interesse, e se continuar tende a ser exponencial.

COMO VOCÊ ENXERGA A INFLUÊNCIA DE UMA PESSOA DE NEGÓCIOS, QUE TENDE A TER UMA VISÃO MUITO FRIA E CALCULISTA, NUM RAMO TÃO ESPECÍFICO, QUE DEPENDE E É MOVIDO POR CALOR E PAIXÃO?

Tem dois lados de se olhar isso: A Stock Car, no passado, só não morreu porque eram apaixonados que faziam isso aqui acontecer. Eu, Carlos Col [ex-promotor da categoria], Paulão, Chico, entre outros, fizemos tudo isso por amor, e fizemos muitas coisas para essa categoria não morrer. Porém, a pessoa apaixonada faz isso enxergando uma perspectiva só, e não consegue ter a visão empresarial da coisa. A relação inversa pode ser tão tóxica quanto também.

Agora, quando um profissional assume uma categoria já sedimentada e segmentada, ele dá outro formato. Se ele pegasse a categoria lá atrás, nos tempos difíceis, não serviria, pois precisava de gente com paixão para não deixar isso morrer, mas agora, é muito necessário que uma pessoa com visão empresarial tenha a visão de negócio e façam as coisas se expandirem, pois ele deixa a emoção de lado.

QUAIS FORAM AS FASES MAIS DIFÍCEIS QUE VOCÊ PASSOU NA CATEGORIA?

Uma delas foi quando nós perdemos o patrocínio da Chevrolet. A categoria quase morreu. Pra evitar isso, então fizemos a ANPP (Associação Nacional de Pilotos e Patrocinadores), que era presidida pelo Wilson Fittipaldi.

Nunca mais me esqueço de quando o Carlos Col chegou pra mim num almoço e falou “Olha, o Wilson não vai mais correr e abriu mão da presidência da associação, e por unanimidade nós escolhemos você para presidir, porque você tem um nome na categoria e tem credibilidade”. Eu falei que não era minha praia, que eu não era político e que meu negócio era correr de carro somente. Depois alguma insistência, eu falei que topava com a condição que o Carlos Col tocasse tudo. Eu assumi, o Paulo Gomes veio como vice e começamos o trabalho.

Para a categoria não morrer, os pilotos pagavam mensalidade, as equipes também, aí o Carlos deu a ideia de eu fazer palestras nas universidades, para engenheiros e afins, nas cidades onde a Stock corria. Essas palestras eram patrocinadas pela Pirelli, e o dinheiro era todo revertido para a Associação.

Houve muitos momentos de muito perrengue na associação, já tiveram momentos em que eu passei o dia todo sentado no chão de pedra passando cordão de pescoço para credenciais, para dar tempo de entregar a todos, e eu já era campeão. Agora eu te pergunto: Quantos campeões fariam isso hoje?

Teve outra situação em que eu tinha um contrato de patrocínio fechado para a categoria, mas a gente ainda não sabia se ia ter campeonato, porque estavam complicadas as negociações com os autódromos. E era uma corda bamba, porque se não tivesse o campeonato, a gente nem teria como devolver o dinheiro para os patrocinadores. Nesse ano a gente foi começar o campeonato só lá em meados de Julho, uma loucura. Seria muito legal se essas pessoas que estão aqui, hoje, colhendo esses frutos, conhecerem um pouco dessa história, e espero que as homenagens que recebi sirvam para esse propósito também.

VOCÊ VOLTARIA PARA A CATEGORIA, SEJA COMO PILOTO, OU ATÉ COMO DIRIGENTE? O QUE PENSA EM FAZER NO FUTURO?

Muita gente me pergunta: Você não quer voltar? Não. Você não vai lá? Não. Você não é convidado? Não. Você não quer ajudar de outra forma ou de outra maneira? Eu respondo que tudo o que eu tinha que fazer eu já fiz, e o que eu posso fazer eu já faço por meio da minha instituição. Então estou tremendamente tranquilo, pois estou retribuindo para a sociedade, e o que eu tinha pra fazer aqui na categoria eu já fiz.

Atualmente eu estou bem feliz e viajando muito de moto, na sexta feira que vem saio de São Paulo e vou até Buenos Aires acompanhando o Rally Mercosul. Mas olha, estou procurando trabalho também! Principalmente que sejam ligados ao automobilismo, que sejam no mesmo perfil que eu fazia na Mitsubishi até 5 anos atrás, ministrando cursos, dando palestras e etc. Se tiver algo, me chama!

O BRASIL CORRE O RISCO IMINENTE DE FICAR SEM NENHUM PILOTO NO GRID DA FÓRMULA 1 MUITO EM BREVE, SEM CONTAR QUE A BASE DO AUTOMOBILISMO NÃO ESTÁ SE RENOVANDO. VOCÊ ACHA QUE O BRASIL CONSEGUE SEGURAR ESSA ONDA E LUTAR PARA NÃO CAIR EM MORTE, TANTO AQUI DENTRO COMO LÁ FORA?

Eu acho que o Brasil consegue segurar a onda sim, porém eu vou falar uma coisa que parece sacrilégio, mas é comprovadamente verdade: Se não tivesse Formula 1 no Brasil, acho que o automobilismo estaria bem melhor.

Explico: Os patrocinadores não habituados, e que poderiam muito bem estar fomentando outras categorias no Brasil e tão a procura de negócios quanto os outros, vão na Formula 1 e alugam um HC (Hospitality Center, ou Centro de Hospitalidades em tradução literal, que é um espaço disponibilizado dentro dos autódromos para patrocinadores e equipes receberem convidados, investidores e etc) pelo mesmo preço em que eles poderiam alugar um aqui, na Stock, por uma temporada inteira. Quase uma concorrência desleal.

Ou seja, a Formula 1 rouba possíveis patrocinadores que poderiam muito investir por aqui, e isso se comprova no exemplo da Argentina, que quando perdeu a F1, viu o automobilismo nacional deles crescer muito. Hoje eles têm uma das maiores categorias de turismo do mundo e várias categorias de fórmula. É uma teoria, não sei se isso se aplicaria aqui no Brasil por N motivos, mas eu acredito que seria real.

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